Tendências do documentário brasileiro de
curta-metragem: uma riqueza de olhares
O filme documentário sempre teve um lugar de destaque
no audiovisual brasileiro ao longo da sua história, não só
por apresentar uma multiplicidade de tendências e variadas formas
de abordagem, mas também pela sua enorme vitalidade neste campo de
criação.
Na 7a Goiânia Mostra Curtas, procuramos apresentar, em
duas sessões dedicadas ao curta-metragem documentário, algumas
das variadas tendências deste campo privilegiado de representação
do real. Longe de apresentar um painel histórico que dê conta
da totalidade de tendências, teremos a oportunidade de assistir alguns
filmes raros e inventivos, que irão compor a mostra e que apresentam
uma riqueza de olhares, tanto do aspecto temático quanto da abordagem
estética. Voz off/over, câmera na mão, câmera
na mão do “outro”, som direto, a não intervenção,
a fronteira com a ficção, a dramatização, imagens
de arquivo, a utilização de entrevistas, narrativas em primeira
pessoa, “filme-processo”, entre outras, são algumas das
variadas estratégias que o foco do documentário apresenta.
No primeiro programa, temos filmes com um viés mais histórico.
O registro de hábitos e costumes de diferentes povos feitos por viajantes
e exploradores, uma das primeiras modalidades do campo documental, pode
ser observado no raro filme de Major Thomaz Reis, feito pela Comissão
Rondon, Rituais e Festas Bororo (1917). Décadas mais tarde
o registro de populações indígenas passa por experiências
inovadoras como a do projeto Vídeo nas Aldeias, que equipa
grupos indígenas com câmeras de vídeo para a busca de
auto-conhecimento e preservação da identidade. É o
caso de A Arca de Z’Oé, de Vincent Carelli e Dominique
Gallois.
O cineasta mineiro Humberto Mauro teve sua passagem pelo cinema documentário
realizando no INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) mais de 357
filmes. Engenhos e Usinas da série Brasilianas retrata de
forma poética um Brasil rural, melódico e nostálgico.
A partir da década de 60, com o movimento do Cinema Novo o documentário
dá um salto estético e ideológico significativo. A
abordagem crítica da realidade brasileira e das questões sociais
ganha força no cinema de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade
e Nelson Pereira dos Santos, cinemanovistas que transitam pelo campo documental.
A crueza das imagens do Maranhão de José Sarney, a poesia
de Manuel Bandeira e a diversidade de sotaques de Brasília são
temas presentes nestes documentários captados ora com câmera
na mão, ora utilizando o som direto.
Na década de 70, o cineasta Aluísio Raulino inova ao quebrar
o domínio da voz do documentarista e entrega a câmera na mão
do seu personagem para que ele próprio decida o que filmar. Este
procedimento é posteriormente adotado no longa-metragem O prisioneiro
da grade de ferro, de Paulo Sacramento, fotografado pelo mesmo Raulino.
No segundo programa, o predomínio é o da produção
mais recente de documentários.
As minorias, a periferia e a exclusão social, temas recorrentes deste
campo do cinema, aparecem nos curtas O príncipe de fogo,
de Silvio Da-Rin e Rota ABC de Francisco César Filho. Uma
outra tendência dos filmes documentais contemporâneos é
o registro da música brasileira. Tim Maia, de Flavio Tambellini,
procura mostrar a música e o pensamento deste controvertido artista.
Socorro Nobre, de Walter Salles Jr., por sua vez, utiliza um tratamento
estético inspirado no expressionismo alemão ao retratar a
amizade entre a presidiária Socorro Nobre e o escultor Franz Krajcberg.
A tênue fronteira entre documentário e ficção
pode ser vista no hibridismo de Passadouro, de Torquato Joel e
no bem-humorado Como se morre no cinema, de Luelane Correia, que
faz uso de encenações para contar a histórias de produção
do filme Vidas Secas. Ainda na linha do cinema refletindo sobre
o cinema Thomaz Farkas, de Walter Lima Júnior, trata do
importante produtor que na década de 60, idealizou a Caravana
Farkas, movimento do documentário brasileiro que explorou as
regiões de um Brasil desconhecido. A metalinguagem também
está presente no vídeo Ação e Dispersão,
de Cezar Migliorin, incômoda provocação à forma
de utilização dos recursos públicos no país.
Para finalizar, neste ano os homenageados fazem parte de duas gerações
distintas de documentaristas. Do paraibano Vladimir Carvalho, um dos nomes
mais representativos do documentário brasileiro, assistiremos a Romeiros
da Guia, um dos primeiros filmes do diretor, que integra o ciclo de
cinema da Paraíba, e o impressionante Brasília segundo
Feldman, sobre a construção de Brasília. O outro
homenageado da mostra é o documentarista Evaldo Mocarzel, que terá
seu curta À margem da imagem, sobre as condições
de vida dos moradores de rua de São Paulo exibido no encerramento.
Com esta multiplicidade de tendências de filmes exibidos na 7a
Goiânia Mostra Curtas, observamos que no formato curta-metragem o
documentário é um campo que sempre se atualiza e se (re)inventa.
Tetê Mattos/UFF
Curadora