Roteiro, o "X" da questão


Depois de vários anos sobrevivendo às sombras, parece que não só público, produtores, diretores, apaixonados por cinema e TV perceberam que para uma trama audiovisual conseguir ser saudável e manter- se em pé é preciso que tenha uma excelente estrutura narrativa, uma trama instigante, bem urdida, como um belo brocado. O roteiro é a primeira e mais essencial das engrenagens de um bom filme, de uma série de televisão, de um documentário, de uma novela das oito. Histórias bem construídas, personagens críveis, profundos, situações dramáticas bem alinhavadas. Para isso, precisamos investir e fomentar a profissão e o profissional de roteiro.

 

O cenário que se apresenta na atualidade é de uma formação acadêmica inconsistente, de poucas iniciativas que auxiliem e incentivem a formação de novos profissionais de roteiro aptos a atender esta demanda imprescindível. O famoso diretor Martin Scorcese disse recentemente que o que se faz de mais revolucionário em termos de dramaturgia audiovisual hoje está nas séries de TV. Obras mais ousadas esteticamente e tematicamente que os próprios filmes de cinema. Os retumbantes sucessos das séries Breaking Bad, Games of Thrones, House of Cards, entre tantas outras, revelam a importância que o mercado internacional está dando ao bom roteiro e à boa dramaturgia.

 

Aqui mesmo, estamos tendo uma guinada na direção e na filosofia das emissoras de televisão, que resolveram investir quantitativa e qualitativamente em novas séries, como a TV Globo, que no último ano lançou mais de meia dúzia de projetos. Para dar conta disso, a rede de televisão mais popular do Brasil reconheceu a necessidade de arejar e reciclar seu parque criativo (leia-se autores), convocando talentosos roteiristas de cinema para atender esta nova demanda, como Bráulio Mantovani & Carolina Kotscho (A Teia), Fernando Bonassi & Marçal Aquino (O Caçador), George Moura (Amores Roubados) e Jorge Furtado (Doce de Mãe). Mesmo nas novelas, reduto quase inexpugnável da velha guarda dos autores reconhecidos, vivemos uma renovação surpreendente e, de novo, a figura central desta transformação é o roteirista e, novamente, o cinema brasileiro vem alimentando a TV, fornecendo mão de obra tão rara e tão especializada. Os exemplos se sucedem no caso das telenovelas – Marcos Berstein & Carlos Gregório (Além do Horizonte), João Emanuel Carneiro (Avenida Brasil).

 

Mesmo os grandes estúdios estrangeiros – Fox, Warner, Turner e Sony –, famosos por produções cuidadosas e requintadas, em função das cotas de tela, também estão abrindo espaço para produções nacionais e, principalmente, para roteiristas nacionais, como fez a HBO com títulos como Psi, Filhos do Carnaval, FDP, contando com profissionais, como Thiago Dottori, José Roberto Torero e Elena Soares.

 

Ou seja, independente da mídia (TV ou cinema) ou do formato (série ou novela) ou do gênero (ficção ou documentário), o que se busca acima de tudo é a excelência dramática, a fluidez narrativa e, para isso, precisamos rapidamente de iniciativas que fomentem o surgimento e a aperfeiçoamento de novos roteiristas. O 10º Curso de Formação Profissional – Núcleo de Desenvolvimento de Roteiros Audiovisuais é voltada diretamente para atender esta carreira emergente e vital para o futuro destas produções audiovisuais, é bem-vinda, urgente e absolutamente necessária.